Memórias fragmentadas de Hou Hsiao-Hsien

Não faço questão de ter absoluta certeza quanto a cronologia das minhas memórias sobre o cinema de Hou Hsiao-Hsien. Assim como em sua obra, as lembranças se mesclam, formando um mosaico de imagens em cores vivas, com os tempos distintos indispensáveis para a compreensão e para a descrição de ambiência, de época. Experiência sensorial que poucos cineastas proporcionam.

O primeiro contato foi especial e marcante, por meio de uma cópia em VCD de Adeus ao sul (Goodbye South, Goodbye / Zaijian, nanguo, zaijian, 1996), em companhia de dois colaboradores deste catálogo, numa tevê de 16 ou 18 polegadas. Inesquecível impacto — da narrativa, da montagem e dos deslocamentos espaço-temporais — atenuado pelo colega que nos apresentava aquela preciosidade. Tão forte que talvez ainda permaneça como um favorito pessoal, nas diversas revisões.

Depois acontece a inusitada e fortuita ida a Taiwan em 2000, para participar do júri do Golden Lion International Student Film Program, seção do Taipei Film Festival. Já estava feliz em ter a chance de conhecer a cultura oriental e aquela cidade industrial interessantíssima por suas contradições, num ambiente de festival estudantil que me é tão caro. Só não contava com o convite para jantar com o prefeito e, nesse jantar, de ter a chance de ser apresentado a... Hou Hsiao-Hsien. Simples aperto de mão, um meio sorriso e admiração vindoura.

Essa viagem também propiciou a visita ao Chinese Taipei Film Archive, pela pura curiosidade de estudante de cinema e cinéfilo. Lá conheci a sra. Teresa Huang, coordenadora internacional do arquivo, e expressei minha vontade em realizar uma retrospectiva de Hou Hsiao-Hsien no meu país. Papo despretensioso de quem ainda começava em suas primeiras programações de cinema, mas valoroso com a confirmação da lembrança na retomada dos contatos mais de oito anos depois. A sra. Huang é sem dúvida a maior colaboradora deste evento, e nossos sinceros agradecimentos especiais são para ela.

A partir desse episódio, passei a acompanhar a obra de Hou com mais afinco, a seguir notícias das estreias de seus filmes nos palcos dos mais renomados festivais de cinema, e de não perder suas raras exibições no Brasil ou no exterior. Nos últimos anos, o acesso a partir da grande rede possibilitou um conhecimento pleno de sua filmografia, ainda que em condições precárias. Felicidade maior veio durante o Festival de Roterdã em 2009, quando recebi a notícia de que o projeto da mostra tinha sido aprovado pelo Banco do Brasil. Por acaso, naquele dia, estavam exibindo Menina bonita (Cute Girl / Jiu shi liuliu de ta, 1980), o primeiro longa dele, a que assisti de corpo presente, mas já imaginando a realização de um sonho antigo.

É nesse espírito que apresentamos Hou Hsiao-Hsien e o cinema de memórias fragmentadas, primeira retrospectiva integral do mestre da nova onda taiwanesa por essas bandas. O trabalho e o esforço de proporcionar essa revisão na melhor condição possível têm viés quase pessoal, pelo simples prazer do desfrute na absorção de imagens e de sons carregados de significados únicos. Convido-os a este banquete cinematográfico, para conjunto deleite de tal fina coleção de sentimentos delicados.

Eduardo Cerveira

Curador


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